Um dia qualquer


Ela estava ali, tinha acabado de escrever seu primeiro bilhete: um cartão de Dia dos Pais, que ela desenhava e pintava pacientemente.

Eu ali, apenas aguardando, imaginando como foi que eu fui me meter nessa.

Como foi, oras? Eu sei muito bem como foi. Você aproveitou o momento certo para que pudéssemos nos ver todo dia... ver, só isso... ou, ao menos, isso. Apesar do desejo em nossos olhos quererem muito mais do que só isso.

Na preocupação da sua filha não ter a oportunidade de ser alfabetizada no tempo certo com esse período obscuro da História, você propôs uma professora particular... e olha só que coincidência, você até conhece uma!

Nós, tão acostumados com os raros encontros às escondidas, longe de olhos curiosos, geralmente na horizontal (ou diagonal, ou vertical, de todos os jeitos possíveis) agora  nos víamos quase todos os dias, com tantas testemunhas, evitando nos olharmos nos olhos para não nos acusarmos, não deixar explícita a nossa intimidade.

De vez em quando nos traímos e nossos olhos se encontram provocando um sorriso inevitável no canto dos lábios. E a conexão imediata nos diz como realmente gostaríamos de estar. Corpo com corpo, bocas coladas (não necessariamente uma na outra), mãos impacientes deslizando pelo corpo.

Ah, momentos tão perfeitos.

- Pronto, prô!

A vozinha inocente me traz de volta:

- Que lindo! O papai vai adorar! Vamos guardar e no domingo você entrega para ele.

O sorriso virou decepção automaticamente:

- Ah, prô! Queria dar agora!

- Mas agora ele está trabalhando - tentei convencê-la - Não podemos atrapalhar!

Argumento em vão. Num piscar de olhos ela se levantou e deixou a cozinha rumo à edícula onde você estava trabalhando. O que eu poderia fazer? Fui atrás dela...

Você, com todo carinho, se abaixa na altura dela, pega o cartão todo orgulhoso com a escrita da pequena e lê em voz alta: "Papai, te amo!". Olha para ela com ternura:

- Também te amo, princesa!

Abraça-a com todo carinho, olha pra mim em meus olhos e repete: "Te amo!"

O que mais eu poderia dizer?

Sorrio e deixo meus lábios se moverem e, mesmo sem som, disparo um "Eu também!", tímido, mas totalmente verdadeiro.

(maio/2021)

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