Uma tarde
Eu te amo!
Escapou assim, depois daquela foda fantástica. Pulou antes que pudesse ser engolido de volta.
Loucura! Não pode ser amor!
Assustada com suas próprias palavras, ela olhou para aquele rosto tão lindo, aquela barba tão bem aparada... ah, aquela barba...
Ele cochilava. Entregou-se ao cansaço de dias de trabalho sem pausa.
Loucura! Como seria amor?
Ambos fugiam de um casamento relativamente feliz para se encontrarem quando o destino determinava que era hora, para se entregarem ao encaixe perfeito de seus corpos em busca do ápice do prazer.
Sexo... desejo... satisfação...
Era isso... só isso... Mais do que isso estragaria todos os momentos perfeitos, aquele 69 perfeito, aquele tapa na bunda perfeito, aquele puxão no cabelo perfeito... ah...
Ela se aconchegou no braço dele, ele ressonava. Ela sabia que o amava. Mas sabia também que não era esse amor de posse, de ciúmes, de viver grudado e ter que saber o que o outro faz a cada minuto do dia. Era um amor diferente, de cuidado, de felicidade momentânea.
Ele não entenderia. Ou, pior, poderia entender errado, acharia que passava pela cabeça dela que eles deveriam largar tudo, família, filhos para fugir e viver um amor de conto de fadas.
Não, não, não! Jamais!
Fadas nem existem! Nem esse tipo de amor!
O amor bom é esse, que se vive na hora, sem promessas, sem expectativas, sem certezas de quando será o próximo encontro. O amor que a gente dobra e guarda com carinho até a próxima mensagem sacana no Whatsapp ou até a próxima oportunidade de se verem (não só ver, claro).
Ela sorriu ao sentir as mãos dele passeando pelas suas costas num carinho constante.
Olhou para ele e viu seus lábios (deliciosos) curvados num sorriso singelo e sem malícia. Um sorriso de quem curte o momento repassando cada detalhe para gravar na mente, na pele, na alma.
Ele vira-se, verifica a hora no celular:
- Preciso voltar ao trabalho, delícia!
Eles se levantam.
- Quer tomar uma ducha? - ela oferece.
- Claro que não! Quero continuar sentindo seu cheiro mais um pouco.
No portão eles trocam mais um beijo pelo lado de dentro, esquivando-se de possíveis olhos curiosos.
Se despedem:
- Vai com cuidado! Avisa quando chegar!
Ela entra ainda flutuando. Vai direto para o chuveiro, se prepara, prende os cabelos e senta na escrivaninha para voltar ao seu trabalho.
Enquanto o computador liga, ela verifica o celular sem pretensão alguma:
"Cheguei! Obrigado pelo encontro maravilhoso. Eu também te amo!"
Dez/2020

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