Um dia qualquer
Ela estava ali, tinha acabado de escrever seu primeiro bilhete: um cartão de Dia dos Pais, que ela desenhava e pintava pacientemente. Eu ali, apenas aguardando, imaginando como foi que eu fui me meter nessa. Como foi, oras? Eu sei muito bem como foi. Você aproveitou o momento certo para que pudéssemos nos ver todo dia... ver, só isso... ou, ao menos, isso. Apesar do desejo em nossos olhos quererem muito mais do que só isso. Na preocupação da sua filha não ter a oportunidade de ser alfabetizada no tempo certo com esse período obscuro da História, você propôs uma professora particular... e olha só que coincidência, você até conhece uma! Nós, tão acostumados com os raros encontros às escondidas, longe de olhos curiosos, geralmente na horizontal (ou diagonal, ou vertical, de todos os jeitos possíveis) agora nos víamos quase todos os dias, com tantas testemunhas, evitando nos olharmos nos olhos para não nos acusarmos, não deixar explícita a nossa intimidade. De vez em quando nos traímo...